Treinando a Atenção

Por Paulo R. Käfer*

Imagine a cena: você está conversando com uma pessoa e percebe que ela está visivelmente agitada, ofegante, gesticula muito e não para de falar. Quando você pensa em abrir a boca, ela interrompe. Observa também que ela checa mensagens no smartphone a cada minuto da conversa. Quando você finalmente consegue esboçar uma frase, nota que ela não consegue prestar atenção nas suas palavras e distrai-se facilmente. Você começa a ter a sensação de que está falando para as paredes e começa a ficar frustrado. O diálogo fica difícil, emperra e acaba não sendo muito produtivo. Cenas similares a essa parecem ser cada vez mais comuns, não?

Mergulhado em um infinito mar de informações, interrupções, estímulos e distrações, o ser humano deste século parece estar com dificuldade de manter a sua atenção focada.

Com uma mente recheada de pensamentos desgovernados, o resultado imediato é a baixa produtividade. E mais: como a pessoa não consegue manter o foco no diálogo, a qualidade de seus relacionamentos diminui. E geralmente ela não se dá conta disso e pensa que os outros são “pessoas difíceis”. Em uma perspectiva mais ampla podemos imaginar que as possibilidades de uma vida plena são reduzidas de maneira significativa.

# Por que deveríamos treinar nossa atenção?

Quando nossa mente fica em um estado alerta, estável e sereno, a felicidade brota de forma natural e espontânea. E quem não quer ser feliz? Outro benefício bacana é que, se estivermos serenos e equilibrados, podemos ser mais úteis às pessoas. Podemos até ajuda-las com nossa presença. Isso realmente é muito auspicioso. Se nos dedicarmos a desenvolver uma mente consciente, alerta e atenta, o mundo ficará bem melhor porque diminuirá sensivelmente os conflitos.

Além disso, melhoramos muitos aspectos de nossa vida: carreira, reputação, finanças, performance, inteligência social, raciocínio, equilíbrio emocional, otimização do tempo e conseguimos realizar mais, sem perder tempo com bobagens. É evidente que há uma relação direta entre atenção e desempenho. Quanto maior a atenção, maior o desempenho e vice-versa.

Ok. Mas o que fazer para adquirir foco e atenção? É sobre isso que vamos conversar. Antes de prosseguirmos, me permita lhe dar os parabéns. Você conseguiu ler até aqui. Isso é um bom sinal, mas…

# Você está realmente atento?

Procure responder para si mesmo:

Como é o seu nível de atenção quando está realizando uma atividade?

Você consegue ficar alerta por quanto tempo sem começar a divagar?

Você sente que se distrai facilmente?

Você se considera um bom ouvinte?

Dê uma nota de 0 a 10 para sua habilidade de escuta ativa.

# Olhando para a própria mente

Quando olhamos para nossa mente, podemos perceber como ela está “trabalhando” e só de fazer isso, já começamos a ficar mais calmos e serenos. Nesse caso, nos tornamos observadores dos próprios processos mentais, mas sem julgá-los nem se ligar muito a eles. O ideal, nesse exercício é apenas observar o que se passa na mente de maneira imparcial. Como nuvens no céu, os pensamentos chegam e vão embora. E a nossa tarefa é muito simples: permitir a chegada e partida dos pensamentos, sem interferir nem se apegar emocionalmente a eles. É um desafio e tanto, mas nos proporciona uma grande sensação de liberdade.

# Que tal ficar “analógico” por algum tempo?

Eu sei! Vivemos na era digital. E que bom! Eu mesmo sou apaixonado por tecnologia. Mas não precisamos nos tornar dependentes do computador e da internet. Para que nossa mente fique atenta, podemos adotar alguns hábitos saudáveis à moda antiga: conversar ao vivo com as pessoas, sentar para jantar junto com a família e contemplar a natureza. O convívio baseado na afetividade, na empatia, na compreensão e no elemento humano é fundamental até para garantir nossa lucidez.

Não podemos fazer do laptop uma extensão do nosso corpo. Esse apego exagerado pode até ser perigoso! A tecnologia é maravilhosa, tem muitos benefícios e encantos, mas temos que saber usufrui-la com consciência e sabedoria sem ficarmos dependentes.

Em nossos cursos, por exemplo, orientamos nossos alunos a guardarem tablets e notebooks. A ideia é ficar 100% presente durante o treinamento, sem distrações. Percebemos que as pessoas ficam mais atentas, focadas e a aprendizagem torna-se mais profunda.

Claro, existem alguns temas em que o uso de equipamentos eletrônicos são fundamentais. Tudo é uma questão de usar o velho, mas sempre na moda, bom senso.

Curiosamente, algumas Organizações do Vale do Silício, justamente o berço das grandes empresas de Tecnologia do mundo pedem que seus funcionários não usem laptops e celulares durante reuniões.

# Escute o silêncio

O silêncio é mágico. Tem uma aura mística e é essencial para apaziguar nossa mente. O mundo atual é tagarela, barulhento e isso incomoda. É maravilhoso quando podemos desfrutar o silêncio. Eu, quando estou em um lugar realmente silencioso, procuro desfrutar ao máximo porque já constatei na prática que o silêncio é realmente revigorante.

E mesmo em meio ao barulho e ruídos é possível silenciar nossa mente praticando a atenção seletiva, ou seja, nos concentramos em um foco apenas e procuramos ignorar demais estímulos. Escutamos os sons, mas não nos identificamos com eles.

# Reserve momentos para apenas ser

É isso mesmo. Não é erro de digitação. Estamos fazendo muito e sendo pouco. Não precisamos nos tornar experts em encher a agenda com atividades inúteis e improdutivas. O raciocínio é o seguinte: quando temos muitas atividades para dar conta, sobrecarregamos o sistema nervoso com altos níveis de cortisol e adrenalina. O resultado provável: stress e logo em seguida, esgotamento.

Para que nossa percepção fique clara e nítida precisamos apenas ser de vez em quando sem nada fazer. Parece que gente ocupada virou sinônimo de sucesso. Acho que não é bem assim. Creio que o verdadeiro sucesso esteja mais ligado a uma mente serena e alegre. O resto é ilusão. Então que tal reservar uns minutinhos durante o dia para apenas ser? Com certeza nossa mente agradece!

# Quando praticar?

Ao longo do dia, podemos praticar a atenção plena em vários momentos. Por exemplo, lavando e secando louças, na fila do supermercado ou preparando aquela comidinha especial. Todas as nossas tarefas podem ser realizadas com plena consciência. É só criar o hábito de dirigir nossa atenção para o momento presente e evitar distrações. Assim nossa atenção fica fortalecida.

Há uma conhecida história zen que conta a conversa de um mestre com seu discípulo:

– Mestre, você faz algum esforço para tornar-se disciplinado?

– Sim.

– Como você exercita isso?

– Quando tenho fome, eu como; quando estou cansado, eu durmo.

– Isto é o que todo mundo faz; podemos dizer então que todos estão fazendo o mesmo exercício?

– Não.

– Por quê?

E o mestre responde:

– Porque quando eles comem, eles não comem, mas estão pensando em várias outras coisas, e assim permitindo-se ficar perturbados; quando eles dormem, eles não dormem, mas sonham com mil e uma coisas. 

A vida já é agitada por si só. Não é porque o mundo é turbulento que nossa mente tem que ser assim. Ela pode ser um oásis de calma em meio ao caos sem precisarmos subir no alto da montanha para ficarmos tranquilos. Precisamos somente de um pouco de esforço e disciplina para treinar a própria atenção e manter nosso foco naquilo que realmente importa.

Grande abraço, paz na mente e até o próximo texto.

Paulo R. Käfer


Todos os textos do blog possuem direitos autorais. Cópia proibida.

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10 thoughts on “Treinando a Atenção

  1. Há anos procuro me “dar o direito” de fazer um treinamento com vocês, mas infelizmente não chegou o momento.
    Estou envolvida com alguns compromissos relativos ao meu trabalho(cursos, aulas, palestras) mas também faço parte de uma instituição na qual “sirvo” sem receber nada em troca, a não ser amizade, ajuda ao outro e muito aprendizado.
    Ao ler esse texto hoje compreendi o quanto de verdade existe no que você, Paulo, escreveu. O silêncio é sobretudo revigorante e é por isso que todos os dias eu renasço para momentos melhores. Moro num local bem afastado do centro. Considero como sendo um local do interior. Há muita paz, passarinhos cantando o tempo todo, árvores em quantidade, muitas plantas(nas quais os pássaros vagueiam fazendo seus ninhos. Existem pequenos animais (micos, por exemplo) que circulam sobre as redes estendidas no meu condomínio. E apesar de sermos um conjunto de casas, as pessoas vivem suas vidas, aproveitando o dia a dia sem muito barulho.
    Sendo assim, Paulo, hoje estou em estado de graça por ter lido ,seu texto e se você me autorizar, gostaria de falar sobre ele no meu blog, apenas colocando algumas das suas palavras nos momentos de maior encanto quando você fala sobre determinadas questões que, muitas vezes, passam desapercebidas aos que não têm FOCO.
    Parabéns pela poesia. Parabéns por ser um profissional de sucesso que ajuda o outro a se descobrir e a viver melhor. Um dia viverei o tempo para fazer seu curso.
    Abraço também para a Jaqueline.

    Lucia Vitagliano – Diretora Executiva do Curso de Oratória

  2. Gostei muito de seu texto. O tema está bem em linha com o que tenho tentado fazer ultimamente… Tenho dado o nome a isso de disciplina, mas reconheço que atenção seletiva é um nome bem melhor.. e que para conseguir é necessário muita disciplina… ai sim!!! Muito obrigado por compartilhar!!

  3. Os tópicos: Observando a Mente, Silêncio e Apenas Ser são de suma importância na vida de todo ser vivente e por mais simples que pareça, são tarefas difíceis de serem executadas e vc´s colocaram com muita leveza. Parabéns! Realmente tudo que tento por em prática na minha vida. Vale a pena ser lido e relido muitas vezes. Aguardo permissão para postar com os devidos créditos em meu blog.
    Marcela Melo.

  4. Oi Paulo e Jaque
    Sabe lendo este texto, pensei no quanto seria maravilhoso se o mundo voltasse a ser como era antes, falo de um saudosismo de conversas de bar, encontrar alguem na padaria e bater papo e esquecer que o paozinho está esfriando. Conversar e esquecer que sua caixa de emails está enchendo, conversar e esquecer que voce recebeu 20 posts no face book.
    A vida andava sem whatsapp, as pessoas riam de uma piada contada na mesa de um bar, hoje são tantas piadinhas publicadas que não conseguimos mais processar e contar para os outros, estamos neuróticos, e queremos tambem publicar textos prontos que muitas vezes nao significam nada para a maioria das pessoas.
    É uma produção em série de baboseiras na internet, e um medo de estar desatualizado do em relação ao ultimo post.
    Precisamos iniciar uma cruzada contra os dedinhos nervosos batendo nos smartphones.
    Abraços e obrigado pela reflexão

    • Olá Airton. Acredito que o desafio é saber usar as tecnologias de forma consciente, mantendo sempre a serenidade, a capacidade de diálogo e a atenção focada. Obrigado pela postagem e grande abraço.

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