Praticando a arte do diálogo

Por Paulo R. Käfer*

Uma das melhores coisas da vida é uma boa conversa. Ao vivo! Sabe aquele diálogo franco, bacana, onde estamos interessados no assunto, em sintonia com a outra pessoa e nem sentimos o tempo passar? Pois é! Esse mesmo.

Saber dialogar é um sinal de maturidade e sabedoria e para exercermos a humanidade que há em nós precisamos aprender a arte da boa conversa. Ouvir, demonstrar interesse genuíno pelas pessoas, perguntar e esperar a resposta, fazer pausas para reflexões no embalo do silêncio, evitar julgamentos apressados…

O diálogo é a verdadeira arte do encontro, da comunhão entre os seres e da compreensão recíproca. E por falar em encontro, disse Carl Gustav Jung: “o encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação”.

O verdadeiro diálogo é isso: produz transformação e aprendizado. Entramos “lagarta” e saímos “borboleta”. Após uma conversa autêntica, não somos mais os mesmos. Somos melhores. Deveríamos todos, aprender e praticar a arte do diálogo.

Somos criaturas linguísticas. E linguagem tem o poder de criar a realidade. Estamos nos comunicando o tempo todo, falando ou não. O ideal é que possamos compreender a fundo os elementos importantes e impactantes que existem na comunicação para melhorarmos as nossas interações e os relacionamentos.

Quando a gente aprende a dialogar efetivamente e aperfeiçoa as nossas habilidades de comunicação, muitas portas se abrem porque aumentamos a conexão com as pessoas. Ao melhorarmos nossa capacidade de diálogo, o mundo fica mais interessante.

Compartilho com você algumas reflexões e estratégias simples, mas poderosas para estabelecermos diálogos produtivos em qualquer tipo de interação humana, tanto no âmbito pessoal quanto no mundo dos negócios.

Mentalidade de excelência

O autodesenvolvimento é essencial para sermos profissionais mais efetivos e pessoas melhores. Antes de mudar o mundo, precisamos aperfeiçoar a nós mesmos. Por exemplo, para ser um bom líder, você primeiro precisa aprender a liderar a si mesmo. Basicamente é essa a lógica. Tão ou mais importante que aprender técnicas da moda, ferramentas sofisticadas e teorias complexas, precisamos desenvolver uma mentalidade de excelência, um “mindset” de alto nível.

Levamos nosso modelo mental e nosso sistema de crenças para os diálogos. A nossa visão de mundo aparece em nossas palavras e na maneira como nos expressamos.

Para dialogar bem com outras pessoas, é importante identificar nossos próprios padrões mentais e averiguar se esses padrões de pensamento são efetivos ou não. Olhando para nossa mente e para os nossos resultados podemos verificar se eles nos levam para uma trilha de felicidade e bem-estar ou se eles nos mantém atrelados a hábitos improdutivos. Se não são interessantes, precisamos mudá-los ou até mesmo abandoná-los e adotar padrões mais elevados, que levam a uma mentalidade mais ampla, de excelência.

Existem várias formas, por exemplo: podemos meditar para expandir a consciência, ler textos inspiradores de grandes mestres, participar de retiros ou grupo de estudos, interagir com pessoas com alto nível de consciência e com visão positiva da vida e por aí vai…

Evitando o “modo autopromoção”

Existem conversas que temos vontade de sair correndo, porque parece que a pessoa só quer falar dela mesma, de como ela é importante e blá, blá, blá. É como se ela tivesse programado o modo “autopromoção” para a conversa. É sempre interessante evitarmos os autoelogios.

Mais elegante do que falar da nossa importância é procurar ser o melhor ser humano que podemos ser. O reconhecimento vem de forma natural na hora certa. Afinal, melhor que qualquer discurso, são as boas ações.

Palavras e Sementes

Uma estratégia altamente inteligente na comunicação é dominarmos o uso da linguagem positiva. Para isso é importante refletir antes de falar para que as palavras utilizadas façam bem para a mente e o coração das pessoas que interagem com a gente.

Um exemplo bem simples é quando as pessoas dizem:

– Não se distraia.

Perceba que o foco está na distração. Não seria mais interessante dar ênfase para a atenção? Nesse caso uma alternativa mais positiva seria dizer:

– Fique atento.

Outro exemplo: ao invés de falarmos na palavra problema podemos utilizar um termo mais ameno, como por exemplo, questão.

Você prefere resolver um problema ou uma questão?

Claro, tudo depende do contexto. Mas de qualquer forma, as palavras tem um efeito.

Deveríamos encarar as palavras como sementes e selecionar aquelas que se transformarão em belas flores no solo fértil do diálogo.

A tarefa: escolher as palavras que causem melhor impacto para nós mesmos, para os outros e para o mundo.

Atenção e Apreciação

Imagine você dialogar com um indivíduo que parece estar em outro planeta, longe, distante, absorvido em seu próprio mundo, embriagado em suas próprias preocupações, checando mensagens a todo instante e completamente indiferente a você. A conversa não avança.

O ideal é darmos total e exclusiva atenção ao outro. William James disse que “o princípio mais profundo da natureza humana é a ânsia de ser apreciado”. Sendo indiferente ao outro, estamos indo na direção oposta. Imagine a esposa perguntando para o marido o que ele acha do novo vestido e ele mal olha para ela e diz um “legal” sem nenhuma empolgação…

O fato é que a atenção genuína ao outro aumenta a conexão e diminui a separação.

Seja relevante e fale sobre ideias

Uma boa estratégia durante o diálogo é procurar se focar em ideias construtivas, positivas e assuntos relevantes. De uma coisa eu estou convicto: não deixaremos uma marca positiva no mundo, resmungando e criticando.

Tenho um apreço muito grande por essa palavra: relevância. Em um mundo infestado de informação inútil, ser relevante é o grande diferencial para promovermos um diálogo efetivo pautado no aprendizado mútuo.

Muita energia é dispensada na tagarelice. A paz interior é amiga do silêncio e não da verbalização superficial, vazia e fútil.

Um bom filtro é nos perguntarmos: o que vou falar agora vai agregar valor para a outra pessoa? Se sim, ok. Se não, talvez nem valha a pena falar.

E também é importante estar receptivo e acolher ideias aparentemente opostas às nossas com respeito. Desse “mix” de ideias podem surgir excelentes soluções criativas.

Pratique a escuta poderosa

Você já teve que parar de falar, porque a outra pessoa não estava prestando atenção ao que você dizia? Alguém já interrompeu indelicadamente quando você estava falando?

Falar demais sem querer escutar contraria o verdadeiro significado da palavra comunicação, que vem do latim comunicare e significa ação em comum, dividir, repartir ou ainda: “ação que requer troca e opinião”.

Eu vou falar uma coisa para você: é raro quem escuta de forma empática hoje em dia! Precisamos ouvir com a intenção de compreender o outro e não com a intenção de responder. É uma diferença sutil, mas faz toda a diferença no diálogo.

Praticar a escuta poderosa é uma das melhores formas de estabelecer vínculos e fortalecer a confiança porque entendemos os sentimentos e o modelo mental de nosso interlocutor com maior clareza.

Segundo Goethe: “falar é uma necessidade, escutar é uma arte”.

Escutar, além de ser uma arte, precisa de treino. Podemos estipular uma meta em nossos diálogos: um esforço para não falar mais do que 49%, a menos que seja estritamente necessário. A gente concede no mínimo 2% a mais de tempo para os outros falarem.

Outra dica para praticarmos: evite julgamentos enquanto ouve. Talvez esse seja o grande desafio: observar e escutar sem julgar.

E é bom evitarmos falar imediatamente após a outra pessoa ter acabado de falar. Pausas são excelentes durante o diálogo porque abrem um espaço para possíveis insights e reflexões. O que seria das belas canções sem as pausas?

Acredito que pessoas que escutam de forma ativa, transmitem mais elegância, sabedoria, lideram melhor, vendem mais, são mais respeitadas e por aí vai.

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Somos seres interdependentes e um dos requisitos para uma vida plena é uma convivência harmoniosa com os outros e com a natureza. Para conviver em harmonia, o nosso ser integral necessita estar em equilíbrio, o nosso coração estar em paz e a nossa mente esbanjar serenidade.

Uma das melhores formas de conseguir isso é cultivar o amor na sua forma mais elevada: o amor por nós mesmos, o amor por todos os seres vivos e o amor pelo planeta.

E quem ama exercita o cuidado. E cuidar com o que dizemos e como dizemos é também cuidar do outro. Só assim estaremos prontos para o diálogo, porque saber dialogar talvez seja uma competência de quem ama. E quer saber? Para aprender a dialogar, precisamos apender a amar!

Que essas dicas e reflexões possam ajudá-lo a aperfeiçoar seus diálogos e aprofundar seus relacionamentos.

Paz na mente, grande abraço e até o próximo texto.


Paulo R. Käfer

Diretor e Facilitador da MKaPlus, empresa especializada em ajudar instrutores e facilitadores a terem alta performance e realizarem treinamentos fantásticos. É instrutor da Formação de Multiplicadores – Facilitador Coach©, com dezenas de turmas realizadas pelo Brasil.

>>> Mais sobre Paulo.

Todos os textos do blog possuem direitos autorais. Cópia proibida.

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10 thoughts on “Praticando a arte do diálogo

  1. Paulo, suas palavras são como um bálsamo, despertam ideias, experiências e novos aprendizados. Obrigada por dividir com seus semelhantes a dádiva recebida, seus conhecimentos e experiências. Você é um grande semeador de boas e enriquecedoras mensagens.

    Abraços

  2. O texto que recebi foi um verdadeiro presente para a minha vida pessoal e profissional.. Estou começando com reflexão da leitura e amanhã no trabalho começarei a executar. este texto acredito que para conseguir sentir o efeito deverá ser apreciado outras vezes, farei este exercício.

    Agradecida!

    Joelma.

      • Prezado Paulo

        É com satisfação que agradeço a oportunidade de compartilhar neste ambiente, norteador de valores. As relações pessoais e de trabalho estão precarizadas em grande parte, porém procurando, indo em busca podemos sim, encontrar pessoas como vocês da MKaplus que ocupam espaços neste universo com uma grande missão de compartilhar seus conhecimentos por causas nobres. Muito mas muito…….. obrigada por esta oportunidade de contato.

        Um abraço a todos!

        Joelma
        Salvador- Bahia.

  3. Belo texto Paulo. Saber que o homem é um ser social e que precisa desenvolver relacionamentos não basta. Mais do que isso, é imprescindível que todos nós saibamos desenvolver de forma correta a arte de dialogar. O bom diálogo tem um grande poder de transformação. Acredito eu que as ideias mais brilhantes do mundo surgiram durante uma boa conversa. Coloquemos em prática essas técnicas, e tornemo-nos inspiradores e autores de grandes ideias.

    • Boa Tarde!

      Que texto gostoso de ser ler, me pareceu estar dialogando ao vivo durante a leitura. Que tenhamos a humildade para aprender a arte de ouvir e contribuir para a promoção da transformação.

      Um grande abraço.
      Parabéns.

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